Terça-feira, 28 de Agosto de 2007

Thais SImpson

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007

Uma Pausa (parte VI)

Novidade em “Uma pausa”, obra conjunta escrita por André Halo (blog Penúltima Palavra) e Dante Accioly (blog Página em Construção). Para ler o novo capítulo da história, clique aqui. Para acompanhar as partes anteriores, confira a seção “Uma pausa” na coluna à direita deste site.

Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

Uma Pausa (parte V)



Sob o lume oscilante da lamparina, com as pernas cruzadas sobre a mesa simples de sua saleta e equilibrando-se na cadeira em pequenos movimentos pendulares, o xerife Banton continuava a examinar o pequeno bloco de papel. Seu olhar não era apenas intrigado, aliás, não seria tarefa fácil para um observador decifrá-lo. Contudo, naqueles olhos, estava o contrato de um homem consigo mesmo. Naquela noite, de onde menos se esperaria, da pequena delegacia de Tonstendale, sairia um homem decidido a entender tudo o que estava oculto nas manchas azuis dos muros, árvores e unhas daquela cidade.
.
No dia seguinte, às margens do velho Woodloop, em meio à pouquíssima claridade vinda do céu cinzento, o boticário Klaus Hunderger empreendia duas tarefas simultaneamente: a de tentar manter presos à face os óculos que teimavam em escorregar nariz abaixo e a identificação e colheita de ervas medicinais, que obstinadamente ainda cresciam por ali, mesmo sob a pouca luz e o frio frequente. Com o som produzido pelo chacoalhar das águas em sua luta perene contra as pedras, o velho boticário não pôde perceber a aproximação do amigo Ted Banton e, durante um de seus reparos aos inquietos óculos, assustando-se com a súbita presença daquele homenzarrão à sua frente, deixou cair boa parte de sua colheita nas águas rápidas.

- Por Deus, desculpe-me, Klaus!

- Você quase me matou de susto, xerife.

- Não foi a minha intenção, desculpe-me. Suas ervas se foram rio abaixo.

- Ora, não ligue pra isso. Elas não se perderam, apenas foram germinar em outro lugar, dar alento a outros. Deus sabe o que faz. Talvez haja um outro como eu no curso do rio precisando exatamente delas para preparar a dose certa para alguém enfermo.

- O tempo e as ervas afetaram a sua cabeça, Klaus. Nesse mundo há apenas dois tipos de homens: os que lutam por seu próprio bem e os que não ligam pra ninguém. Você e eu somos exceções a essa maldita regra.
Disse com a sua maneira de sempre: um misto entre cordialidade e dureza.
.
O boticário deu de ombros, sabia do efeito inútil daquela conversa. Sabia que Ted, embora sempre cordial, carregava no peito, onde algum dia houvera um coração, uma pedra; e que seu papel de amigo não era o mesmo das águas para com as pedras do velho Woodloop, que corriam eternas a arrematar-lhes as arestas, mas sim o de limo, despretensiosa e calmamente, dia após dia, a suavizar-lhe um pouco a existência.

- Ora Ted, você não pensa mesmo desta maneira. Você é um protetor. Um homem íntegro e bom. Um protetor nato! E todos aqui neste fim-de-mundo estamos muito felizes em tê-lo conosco.

- Nem todos, Klaus. Alguém não ficará nada contente quando eu terminar o que há pra ser feito. Aliás, é justamente por isso que vim até aqui.

- Do que está falando...? Ontem na taberna do Will o pessoal comentou ter achado você um tanto estranho durante o funeral. Mas... afinal, quem não estaria estranho depois de um incêndio destes... e ainda... o pobre Tim!

- Exatamente! É exatamente sobre o Sr. O’Brian e o incêndio que quero lhe falar.

- Claro, mas... Em que poderia ser útil? Sequer estava na cidade quando tudo aconteceu. Eu... Bem, eu estava coletando algum azevinho quando vi, ainda lá do alto da cordilheira, o incêndio se alastrar desde a capela até os limites da cid...

.
Hunderger foi interrompido pelo xerife Banton:

- Escute Klaus, eu não vim aqui saber onde você estava na madrugada do incêndio. Eu vim pedir para que você analise isto pra mim.

Tirou do bolso o cilindro contendo as mechas brancas do velho leiteiro e entregou-o ao boticário.

- O que é isso, Ted? Santo Deus...! São do pobre Tim?

- Por favor, verifique se há alguma coisa estranha agarrada a eles. Qualquer coisa! E não conte a ninguém sobre isso, sim?

- Claro, Ted! Farei o que puder.

- Espere.
Interrompeu novamente o xerife.

- Você disse que viu o fogo se alastrar desde a igreja?
.
.
"Uma pausa" é uma obra conjunta, escrita por André Halo (do blog Penúltima Palavra) e Dante Accioly (do blog Página em Construção). É possível que outras pessoas e outros blogs passem a contribuir com a história ao longo das próximas edições. Para acompanhar todos os capítulos do conto, confira a seção "Uma pausa" na coluna à direita deste site.

Quarta-feira, 25 de Julho de 2007

Uma pausa (parte III)

O pequeno cemitério era composto por um par de morrotes que se erguiam logo à frente da cordilheira que guardava a pequena Tonstendale do bravio e incessante vento norte, tão comum por ali. Imediatamente atrás dos morrotes, esgueirando-se entre a cordilheira e estes, escorreria um córrego que alimentaria o velho Woodloop, não fosse a época de temperaturas baixas a impedir qualquer arroubo de fluidez da natureza. Ash Hill então, apenas era notado pelo contraste estabelecido entre a paisagem minimalista dos morros cobertos pelo gelo e as séries de pequenas cruzes e cercas escuras a delinear a geografia simples do lugar.
O local onde jazeria o corpo do Sr. O’Brian havia sido disponibilizado às pressas pelo prefeito Dwight Prudhoe que correu a fazer saber a todos que o ato, mínimo segundo ele, havia sido “uma cortesia da municipalidade para com um de seus mais carismáticos cidadãos”. Contudo, o endereço J37W, guiava o cortejo a um local um tanto quanto escondido, em virtude de uma depressão natural do terreno. “Big” Due, como era conhecido o rechonchudo e bonachão prefeito, até que tentou melhor locação, mas não queria se indispor com o reverendo Smith, que sugeriu um local mais simples para enterrar o leiteiro, alegando não haver necessidade de desperdiçar bom terreno, já escasso em Ash Hill, com “alguém que sequer teria família a visitá-lo no dia dos mortos”. Da pouca nobreza do local escolhido, porém, surgiu o sítio perfeito para acolher as dezenas de presentes em torno da pequena cova, já que o relevo oferecia uma arquibancada tão natural quanto incomum, onde não havia alegria ou gritos e nem nada se comemorava.
Após rápida acomodação, o reverendo Ronald Smith procedeu ao início do funeral. Suas palavras arrostavam os sentimentos dos que ali estavam. Eram vazias de sentido emocional e soavam como a explicação formal de um servidor público à cerca de um procedimento qualquer, no caso, o encaminhamento de uma alma aos céus. A razão da indiferença indisfarçável era óbvia, pois a igreja jamais reconhecera o dom do Sr. O’Brian. Ao contrário, por meio dos sermões daquele mesmo representante, procurara várias vezes dissuadir seus fiéis da idéia de valer-se das antevisões do velho leiteiro, a exemplo do ocorrido na semana que antecedeu o terrível terremoto de 1864.
Naquela ocasião, uma camponesa desconhecida havia percorrido léguas a cavalo desde o vilarejo onde morava, sob forte frio, apenas para uma visita à velha cabana do Sr. O’Brian. O que ela ouviu acabou se espalhando e amedrontando o pessoal não só de Tonstendale, mas de toda a região. Foi durante a missa de domingo, quando o sermão já se encaminhava para o seu fechamento, que o reverendo Smith, acrescentando volume gradualmente à voz já notadamente alterada, perdeu o controle e, praticamente aos berros, desclassificou e expulsou o velho leiteiro da igreja acrescentando: “... e aqueles aos quais minha atitude esteja desagradando aviso: ninguém está acima das palavras e ensinamentos de Cristo, tampouco o está dos poderes de Deus, nosso único e leal salvador e que, a partir de hoje, sob este santo teto, não serão mais tolerados tais esoterismos fantasiosos”. Passados cinco dias exatos, em uma sexta-feira santa, um dos mais fortes abalos sísmicos da história do Alasca praticamente arrasaria a pequena cidade e deixaria como sua maior cicatriz a queda e consequente destruição da torre principal da Congregação Luterana de Tonstendale, não atingindo por pouco a casa paroquial.
.
"Uma pausa" é uma obra conjunta, escrita por André Halo (do blog Penúltima Palavra) e Dante Accioly (do blog Página em Construção). É possível que outras pessoas e outros blogs passem a contribuir com a história ao longo das próximas edições. Para acompanhar todos os capítulos do conto, confira a seção "Uma pausa" (na coluna à direita deste site).
.
Links para Parte I e Parte II